quinta-feira, 4 de agosto de 2011

O Tubarão e o Salmão

        Em tempos de colegial, minha percepção sobre o mundo era muito simples, como a de qualquer pivete. Quando pensava em animais por exemplo, tinha em mente a existência de cinco grupos distintos: peixes, anfíbios, répteis, aves e mamíferos. Afinal, era assim que me era ensinado, e acredito que assim todos nós aprendemos. Quando comecei a cursar biologia, logo na primeira aula de zoologia (estudo dos animais), minha professora fez uma pergunta à classe :
        - Qual desses animais é um parente mais próximo do salmão, o tubarão, ou a lagartixa?
        Cocei o queixo, intrigado. Pra mim não fazia o menor sentido aquela colocação. A lagartixa é um réptil. O salmão é um peixe, e o tubarão também, diabos! Não tinha dúvidas, mas estava fácil de mais e acabei hesitando. Alguém da turma respondeu confiante tubarão e caiu na "trap" da professora. Era uma cilada, Bino. Mas como assim, então seria mesmo o salmão um parente mais próximo de uma lagartixa, um réptil? Segundo alguns pesquisadores, sim. 
         Segundo Pough et al, o grupo dos peixes é o grupo mais diverso dentre os vertebrados. Contamos com diversos tipos de organismos distintos: desde os poderosos e iluminados peixes abissais, até o mais colorido e simpático dos peixinhos ornamentais. O fato de habitarem o mesmo ambiente foi crucial para a formação desse grupo por parte do homem, o que é mais que natural. Didaticamente é maravilhoso, facilita o aprendizado dos mais jovens e é o suficiente para quem não precisa conhecer muito sobre esses assuntos. Porém, observando de perto um tubarão e um salmão vemos de cara uma grande diferença: o esqueleto. O salmão possui esqueleto ósseo, o tubarão é completamente cartilaginoso. Ou seja, se considerarmos o esqueleto um caractér determinante para a designação de parentesco entre espécies, o salmão é mais parecido com nós, humanos. Conclusão: humanos são peixes (WTF!?). Além do mais, o tubarão possui diversas outras características que não conferem com os outros peixes ósseos, como as Ampolas de Lorenzini - órgãos sensitivos encontrados no focinho do animal -; a ausência de bexiga natatória - orgão homólogo ao pulmão que auxilia na flutuabilidade -; o tipo de reprodução através do clásper, exclusivo dos peixes cartilaginosos; e por aí vai. A hipótese a qual me refiro baseia-se num conceito conhecido como Convergência Adaptativa. Ela fala sobre organismos de origens evolutivas diferentes, mas que apresentam características morfofisiológicas em comum. Imagine uma mosca e um gavião, ambos possuem asas, mas qual o nível de parentesco entre eles? Muito distante eu diria. Podemos imaginar o mesmo com o peixe-boi, o golfinho e as baleias, que sabemos que não são peixes mas que são muito parecidos. Esse é o pensamento que temos que ter em relação ao salmão e o tubarão. As pressões exercidas pelo meio, no caso os mares, moldaram não só estruturalmente como fisiologicamente os organismos que nele vivem. É o que Darwin chamava de Seleção Natural.
         Por outro lado, segundo Pough e seus misteriosos colaboradores, há indícios de que os primeiros ancestrais dos peixes modernos eram ósseos, como os extintos Placodermes, que eram verdadeiros fortes ambulantes (isso desmente tudo o que eu falei até agora, podem me odiar) . Portanto, a presença ou não de um esqueleto calcificado não seria uma característica evolutiva pertinente. Pough apresenta teorias que discorrem sobre o aparecimento e desaparecimento do esqueleto calcificado e que o fato de eles encontrarem-se mineralizados ou não, seria uma sutil diferença apenas. Nos humanos, os bebês recém-nascidos não possuem seus ossos completamente mineralizados, eles são parcialmente cartilaginosos. Esse fato, ao meu ver, favorece essa ideia. Talvez não sejamos peixes afinal :(


Referências: POUGH, F. H. A vida dos vertebrados. 2. ed. São Paulo: Atheneu, 1999.
http://marte.museu-goeldi.br/marcioayres/index.php?option=com_content&view=article&id=12&Itemid=13
http://biologo.com.br/tubarao/
http://www.portalbrasil.net/educacao_seresvivos_origem.htm


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