A evolução da socialidade na natureza
é uma questão antiga e até hoje intriga muitos pesquisadores.
Alguns deles sugerem que sua evolução tenha ocorrido de forma
independente na natureza mais de dez vezes. Quando pensamos em
organismos que formam grupos, podemos concluir que, mesmo os animais
mais diferentes, como artrópodes e vertebrados, compartilham boa
parte das vantagens e desvantagens desse modo de vida. Existem
diversas hipóteses que discutem como a formação de grupos fixou-se
na natureza. A hipótese mais clássica, digamos assim, é conhecida
como "efeito da diluição". Esse efeito determina que as
chances de um animal ser comido por um predador são reduzidas
conforme o tamanho do grupo no qual ele se encontra aumenta. É muito
simples. Se um animal que se encontra sozinho em seu hábitat tem uma
chance de ser comido por um predador, dois animais que vivem juntos
tem metade da chance de serem predados, cada um. Se houver três, a
chance cai para um terço, e assim sucessivamente. Sabemos que
existem padrões para a ocorrência de espécies sociais, subsociais
e solitárias. Aparentemente, as espécies sociais ocorrem mais
frequentemente em locais onde as pressões seletivas são mais
intensas, especialmente em locais onde existem mais predadores.
Lembra daqueles gigantescos cardumes rodeados por tubarões que
passam no Discovery Channel?
Direcionando meus pensamentos para os
artrópodes – meu foco –, destaco que alguns pesquisadores
determinaram que as espécies sociais são mais comuns em regiões de
menor latitude, ou seja, nos trópicos. Por que será? Hipóteses
foram geradas e testadas para explicar esse padrão. A primeira
delas, acredito eu, atribui essa distribuição à maior
disponibilidade de alimentos nos trópicos. Os cientistas sabem (mas
não sabem porquê) que existem mais espécies nos trópicos.
Portanto, é razoável pensar que, para viver em grupo, é necessário
mais comida, e não há lugar melhor que nos trópicos. Todavia, essa
hipótese não explica satisfatoriamente esse padrão. Percebeu-se
que existem muitas espécies sociais que vivem em regiões tropicais
mais áridas e com menor disponibilidade de alimentos. E agora? A
srta Majer e seus colegas testaram, além da hipótese da
disponibilidade de alimentos, se a precipitação anual de chuvas
ajudava a explicar esse padrão. E ela encontrou uma relação, mesmo
que não muito forte. Daí foi possível criar mais hipóteses para
explicar porque existem mais espécies sociais em locais mais úmidos.
Especula-se que as populações de artrópodes são mais resistentes
às chuvas por manterem-se unidas e por, frequentemente, viverem em
ninhos, locais mais resistentes às chuvas. Mas ainda é pouco,
existem outros fatores que influenciam fortemente esse padrão.
É preciso pensar por outros ângulos.
O que permite que esses animais sociais vivam em harmonia,
compartilhando seus alimentos, cuidando da prole alheia, sem competir
(aparentemente) com seus semelhantes? A resposta para essa questão é
muito eloquente: a endogamia. Já adianto que esse fenômeno pode
estar relacionado com a capacidade de dispersão (deslocamento) de
seus indivíduos. A endogamia ocorre quando indivíduos de uma
espécie acasalam e geram uma prole com um parente próximo, como um
irmão, mãe, ou pai. Geralmente, a frequência da endogamia é
reduzida porque seus indivíduos deixam o lar de seus parentes para
aventurar-se, muitas vezes sozinhos, na natureza, ao passo de que é
possível para o grupo em questão receber visitas de indivíduos que
vêm de fora. Mas, se considerarmos espécies que, de alguma maneira
aventuram-se menos além dos domínios de sua população, talvez
pelos perigos da natureza, podemos esperar que as chances deste
animal encontrar um parente próximo sejam maiores. Ao longo do
tempo, aquela população apresentará animais cada vez mais
semelhantes geneticamente, logo, é possível que eles se tornem mais
tolerantes uns com os outros. Esse é o princípio da hipótese. Após
esses passos, pode haver a complexificação de alguns processos,
gerando cooperação, partilha de alimentos, divisão de tarefas,
cuidado parental compartilhado, e etc.
De qualquer forma, ainda não foram
formuladas teorias capazes de demonstrar a evolução da socialidade
de maneira geral. Existem apenas hipóteses (é aqui que um cientista
deve diferenciar essas duas palavras). As teorias não existem
(ainda) por que é extremamente difícil demonstrar eventos
evolutivos capazes de explicar todos ou quase todos os padrões
identificados. Às vezes, é possível associar fortemente alguns
padrões pontuais a certos fenômenos que conhecemos. Ainda são
necessários muitos esforços, regionais e internacionais, para que
possamos ter um vislumbre mais concreto dos mistérios que a natureza
nos esconde.