terça-feira, 30 de setembro de 2014

A evolução da socialidade (principalmente em artrópodes)

A evolução da socialidade na natureza é uma questão antiga e até hoje intriga muitos pesquisadores. Alguns deles sugerem que sua evolução tenha ocorrido de forma independente na natureza mais de dez vezes. Quando pensamos em organismos que formam grupos, podemos concluir que, mesmo os animais mais diferentes, como artrópodes e vertebrados, compartilham boa parte das vantagens e desvantagens desse modo de vida. Existem diversas hipóteses que discutem como a formação de grupos fixou-se na natureza. A hipótese mais clássica, digamos assim, é conhecida como "efeito da diluição". Esse efeito determina que as chances de um animal ser comido por um predador são reduzidas conforme o tamanho do grupo no qual ele se encontra aumenta. É muito simples. Se um animal que se encontra sozinho em seu hábitat tem uma chance de ser comido por um predador, dois animais que vivem juntos tem metade da chance de serem predados, cada um. Se houver três, a chance cai para um terço, e assim sucessivamente. Sabemos que existem padrões para a ocorrência de espécies sociais, subsociais e solitárias. Aparentemente, as espécies sociais ocorrem mais frequentemente em locais onde as pressões seletivas são mais intensas, especialmente em locais onde existem mais predadores. Lembra daqueles gigantescos cardumes rodeados por tubarões que passam no Discovery Channel?

Direcionando meus pensamentos para os artrópodes – meu foco –, destaco que alguns pesquisadores determinaram que as espécies sociais são mais comuns em regiões de menor latitude, ou seja, nos trópicos. Por que será? Hipóteses foram geradas e testadas para explicar esse padrão. A primeira delas, acredito eu, atribui essa distribuição à maior disponibilidade de alimentos nos trópicos. Os cientistas sabem (mas não sabem porquê) que existem mais espécies nos trópicos. Portanto, é razoável pensar que, para viver em grupo, é necessário mais comida, e não há lugar melhor que nos trópicos. Todavia, essa hipótese não explica satisfatoriamente esse padrão. Percebeu-se que existem muitas espécies sociais que vivem em regiões tropicais mais áridas e com menor disponibilidade de alimentos. E agora? A srta Majer e seus colegas testaram, além da hipótese da disponibilidade de alimentos, se a precipitação anual de chuvas ajudava a explicar esse padrão. E ela encontrou uma relação, mesmo que não muito forte. Daí foi possível criar mais hipóteses para explicar porque existem mais espécies sociais em locais mais úmidos. Especula-se que as populações de artrópodes são mais resistentes às chuvas por manterem-se unidas e por, frequentemente, viverem em ninhos, locais mais resistentes às chuvas. Mas ainda é pouco, existem outros fatores que influenciam fortemente esse padrão.

É preciso pensar por outros ângulos. O que permite que esses animais sociais vivam em harmonia, compartilhando seus alimentos, cuidando da prole alheia, sem competir (aparentemente) com seus semelhantes? A resposta para essa questão é muito eloquente: a endogamia. Já adianto que esse fenômeno pode estar relacionado com a capacidade de dispersão (deslocamento) de seus indivíduos. A endogamia ocorre quando indivíduos de uma espécie acasalam e geram uma prole com um parente próximo, como um irmão, mãe, ou pai. Geralmente, a frequência da endogamia é reduzida porque seus indivíduos deixam o lar de seus parentes para aventurar-se, muitas vezes sozinhos, na natureza, ao passo de que é possível para o grupo em questão receber visitas de indivíduos que vêm de fora. Mas, se considerarmos espécies que, de alguma maneira aventuram-se menos além dos domínios de sua população, talvez pelos perigos da natureza, podemos esperar que as chances deste animal encontrar um parente próximo sejam maiores. Ao longo do tempo, aquela população apresentará animais cada vez mais semelhantes geneticamente, logo, é possível que eles se tornem mais tolerantes uns com os outros. Esse é o princípio da hipótese. Após esses passos, pode haver a complexificação de alguns processos, gerando cooperação, partilha de alimentos, divisão de tarefas, cuidado parental compartilhado, e etc.


De qualquer forma, ainda não foram formuladas teorias capazes de demonstrar a evolução da socialidade de maneira geral. Existem apenas hipóteses (é aqui que um cientista deve diferenciar essas duas palavras). As teorias não existem (ainda) por que é extremamente difícil demonstrar eventos evolutivos capazes de explicar todos ou quase todos os padrões identificados. Às vezes, é possível associar fortemente alguns padrões pontuais a certos fenômenos que conhecemos. Ainda são necessários muitos esforços, regionais e internacionais, para que possamos ter um vislumbre mais concreto dos mistérios que a natureza nos esconde.